E se foi quando o vento fez a curva.
Não a vi partir, só senti a ausência e no meu peito parecia ter uma prensa. Não consegui pensar no motivo, será que foi por algo óbvio, mal-resolvido?
Foi díficil chegar em casa e não ver aquela calcinha de bolinhas, pequeninha e todas as outras que eu tanto gostava, penduradas no box do chuveiro.
Resolvi sair de casa, agora chove. Vejo meu reflexo na poça que se formou na rua, aquela mesma, em que passavamos, diariamente, no caminho de volta para casa.
Talvez a culpa foi do vento, o mesmo que a trouxe e encheu minha vida de alegria, agora a levou numa tarde sombria.
Ou a culpa é da rotina, me livrarei dela novamente e quem sabe o vento te trará mais uma vez, e sairei desta corrente de ar, essa brisa que faz me afogar na sua ausência.
A curva do vento
Você escondida em mim

A filha do Coronel
Tinha 17 anos, vivia na cidade grande para terminar os estudos em um lugar bom, e ir para São Paulo estudar naquelas grandes e caras Universidades.
Costumava morar em um canto escondido no interior de Pernambuco, onde o sol aquecia e sempre deixava o mormaço. Seu pai o "Coronel", tinha esse nome, não por ser da polícia e sim por ser o prefeito. Todos ainda votavam neste ser, pelas histórias de que ele sabia tudo, inclusive o nome daqueles que não votaram nele. Até mesmo porque aquelas pessoas sumiam, sem explicação.
Mas era um sujeito porreta, bom que só! Instalou o primeiro posto de saúde na cidade, e sempre falava em progresso, progresso aqui, progresso ali.
E, mesmo sem ninguém entender o significado dessa palavra engraçada, todos imaginavam ser algo bom.

Mas somente para ajudar na próxima "festa da democracia", mais algumas pessoas desapareceram da cidadezinha, menos um adolescente que sobreviveu e testemunhou seus pais serem brutalmente levados.
Mesmo assim, ela pegou o avião. Voou para o seu destino, levando o último dinheiro e esperanças de sucesso.
Se acomodou em um mínusculo apartamento na Augusta, bem próximo a Universidade. Estudou muito, se formou, com louvor e, seduzida pela cidade resolveu ficar.
Tinha um bom emprego e por coincidência encontrou um rapaz que também havia nascido em sua cidade natal, sua história era muito comovente: era órfão e superou o fato de ter assistido praticamente a morte de seus pais, e começaram a namorar.
Em uma ligação soube que agora também era órfã. Seu pai fora assassinado, no discurso de posse, era a 4ª e última vez que se elegia.
Mesmo com todos os privilégios e honras de seu pai a polícia arcaica da cidadezinha não conseguia descobrir o paradeiro de quem ceifou a vida do Coronel.
Ficou durante um curto período o mistério deste homicídio. Curto, porque finalmente a polícia Paulistana prendeu o suspeito, diante dos seguintes fatos:
"Uma moça pernambucana suspeitou que seu namorado a traia, pois desapareceu por 3 dias. Quando o rapaz voltou estava descontrolada e com uma faca na mão, pois não conseguia falar para tirar uma satisfação de seu namorado. No momento, o rapaz, estava tão amedrontado implorando por sua vida que, em um engano, acabou por confessar ser o assassino de seu pai. Mas que se arrependeu, pois, depois, percebeu que realmente se apaixonou pela "filha do Coronel"."
Melhor dar férias ao amor
Looping
Sentiu seu cheiro, deitou em sua cama e disse:
- Hoje é o último!
Acordou e novamente fumou.
Apagou seu cigarro junto a sua pouca memória recente.
E assim, de suas doenças nunca se curou.
Embora, vontade nunca lhe faltou.
às 09:00 5 leram Tag Contos, Momento de desabafo
Perdido no mundo das palavras
Achei melhor repostar todos os capitulos para o final ficar mais coerente, assim, quem não teve a oportunidade de ler todos poderá fazer agora e já com o capítulo final!


Uma noite o sobrevivente, perturbado, saiu de sua casa e foi as ruas. No boteco que frequentava, embebedou-se, bradou, gritou o seu desespero, ficou rouco.
Se entregou à melancolia, abraçou prostitutas, quebrou garrafas, arranjou brigas.
Um policial chegou, deixou sua arma em cima da viatura. Deu-lhe a ordem de prisão, o revistou e num piscar olhos sua arma estava na mão do baderneiro.
Tinha o 38 na mira de sua própria cabeça. O policial tentou evitar, enfim percebeu que era um homem desesperado, mas ficou somente as tentativas.
O som forte da munição saindo e indo direto em seu cérebro, ecoou por quarteirões.
Nos últimos segundos de vida sentiu que seus pensamentos saíram de sua mente, e percebeu que provavelmente o mesmo aconteceu com todos os outros. Mas sentiu saber que com sua morte outros poetas, contistas, cronistas, poderiam surgir.
O sobrevivente se foi, mas libertou este narrador que vos conta esta história. Não, não foi nenhum vidente, médium, paranormal, que escreveu.
Eu sou a caneta, o papel e a memória de todos os escritores que se foram.
*Última foto foi utilizada do blog - grupodeatorestolerance.blogspot.com/
Perdido no mundo das palavras
Foi procurar um dos escritores veteranos que conhecia, para desabafar, pegar uma segunda opinião. Achava não haver alguém que lhe entenderia melhor.
Explicou o fato e lhe mostrou a mão parada segurando a caneta, como um suícida que fica horas com a faca a mirar o pulso, e não tem sucesso.
Este escritor veterano, contou a outros, que contou a outros, que começaram com o tempo a se desesperar e ter medo de acontecer o mesmo com eles.
E aconteceu. A todos.
Aguarde até amanhã para ver o desfecho da história...
Perdido no mundo das palavras
Infelizmente, não havia estudos a respeito e não se sabia de cura, quem sabe o tempo resolveria. Essa nem Freud explicou!
Saiu do consultório decepcionado. Seria nada sem sua escrita, como um passáro frustrado em não saber voar, a prostituta que sai nas ruas e nunca mais conseguiu clientes.
Chegou ao mais alto de sua sacada para ver se conseguia ao menos descrever o horizonte.
Uma folha em branco, caneta, mão: e nada.
Pensou em desenhar suas poesias, ou ao menos a paisagem de sua sacada: bloqueado. Não saia nem uma bolinha, triângulos, rabiscos, simplesmente sua mão ficava parada.
Continua...
Perdido no mundo das palavras
De repente a cabeça ficou muda, pensamentos, memórias, orgias surgiam mas não saiam, sentia que o encanto tanto cultivado em escrever e tirar os pensamentos do lugar mais extremo de seu cérebro, estava ausente.
Saiu se debatendo pelas ruas. Por quê? Por que isso estava acontecendo logo com ele? Uma pessoa empenhada em suas leituras para sempre conseguir escrever mais e melhor.
Mas naquele momento nada era melhor do que uma noite de repouso, para talvez tudo voltar ao normal.
Acordou no dia seguinte e nada, tudo estava igual, nos outros outros dias também. Na semana seguinte resolveu ir ao psicólogo para tentar entender, será que havia desaprendido a escrever?
Continua...
Perdido no mundo das palavras
Em um momento de inspiração, nessa semana postarei um conto e por ser mais longo que o habitual dividi em capitulos que serão postados diariamente.
Capitulo 1
- Não, não era assim que eu queria começar com você, volta! Tá vai, me espera! Eu vou pensar em alguma coisa.
A folha em branco, um pouco enrugada, na máquina de escrever demonstrava desespero.
Um dia, pensativo e esquecido. Não conseguia soltar todas as palavras e palavrões que estava na cabeça.
Na sacada de sua casa, era possível ver seus cabelos que começavam a ficar grisalhos andando de um lado para outro na tentativa de tirar um folêgo de idéias para escrever.
- Frustração, frustração, estação! Uma outra estação, frutas, não, não! Porra! Vou acender meu cigarro.
Continua...
Compassos
Descalça andava. Em cada passo trocado seus pés levemente bagunçavam os finos grãos de areia.
No compasso da solidão continuava a andar.
Ao longe podia ver as marcas em seu jovem corpo. De perto cicatrizes de uma vida conturbada lhe cercavam.
Seu rosto sereno tranquilizou as águas, agora tocava o limite da areia com o mar.
O cheiro da maresia lhe sufocava e recepcionava, presentiu que ali era o fim.
Desespero. Uma onda lhe envolveu. Neste turbilhão o mar lhe soltou, sentiu areia em seu corpo.
No compasso da criação o mar lhe deu uma chance.
Ao longe uma silhueta repousando. De perto uma camada de pele sai e se renova.
Seu rosto sereno se tranquilizou, agora o mar lhe tirou o fardo e apagou as marcas e cicatrizes dessa vida conturbada que um dia lhe cercou.
Microconto #2 - O espião
às 12:56 7 leram Tag Contos, Microcontos
Microconto #1
À procura
Procurava algo que preenchesse aquele vazio, e achou! Viu seu nome nos jornais: coluna de falecimentos, sessão dos "desconhecidos".
às 08:35 3 leram Tag Contos, Microcontos
Bukowski em quadrinhos!
Não vou ficar aqui esclarecendo o porquê.
Falta de interesse em explicar a parte, o que interessa - para mim e para quem compartilha do meu gosto - foi que descobri há pouco tempo (mas que já existe há muito tempo). Uma HQ com 8 crônicas do livro Delírios Cotidianos desenhado por Matthias Schultheiss.
Agora os personagens não ficam somente na imaginação. Nestes quadrinhos foram desenhados todo um mundo que o Velho construiu em sua literatura, desde o universo dos bêbados, das prostitutas, aos marginais e desesperados que habitam em suas páginas.
Passei os olhos nessa obra quando estava no Metrô Tatuapé, e já pude perceber algo de qualidade, mas minhas condições monetárias não permitiram a compra...
Mas daremos três vivas a internet e as pessoas que a utilizam e disponibilizaram o download dessa obra:
VIVA! VIVA ! VIVA !
Estou começando a ler agora, mas mesmo assim ainda pretendo comprá-lo para ficar na estante junto aos meus outros 5 livros do Buk.
Segue abaixo o link para o download:
http://rs774.rapidshare.com/files/216752465/Delirios_cotidianos_bukowski.rar
Boa leitura!
às 11:38 2 leram Tag Artes, Contos, Downloads, Esculachei, Indicações, Livros
Marina
Marina, era uma criança estranha, esquisita, esquizofrênica e estrambótica, tudo que escrevia começa sempre com a letra "E".
Tinha uma fixação por essa letra, gostava de sua forma: 1 reta vertical, cortada por três na horizontal.
Um dia aprendeu matemática: uma reta em 90º e outras três paralelas em 180º.
Sempre tentou atingir a perfeição, a partir desse dia tentava caçoar as crianças que a escrevia de uma forma torta, e ângulos errados.
Se pegou pensando em seu nome que começava com a letra "M", descobriu que havia outras formas. Mas, logo depois do "N" se perdeu em uma letra, esta tinha uma forma que a matemática ainda não havia lhe explicado.
Procurou e aprendeu que o "O": era uma circunferência de 360º.
Mudou sua visão começou a detalhar mais ao seu redor, via que o mundo era Abundante, Belo, Criativo, Desconcertante, Exuberante, Excentríco.
Seus pais não viram a diferença em seu comportamento. E, Marina sentindo-se só diante de seu ABC, recaiu à letra "E".
Na escola continuou ser caçoada pelo seu jeito, os professores não há entendiam e a entediavam, em sua casa seus pais se enganavam e se separavam.
Morou com seu pai, abandonada pela mãe.
Descubriu no seu antigo alfabeto o significado da palavra Solidão, Tolêrancia, Urgência, Vida. Parou no V ... e se sentiu Esquecida na Vida.
No zumbido de um rádio, lembrou que seu nome era com "M" de morte e assim completou o seu alfabeto.